Practice

Abrir espaço para aquilo que pode ser compreendido quando deixa de ser apenas explicado e passa a ser vivido. 

“Havia algo de contraditório quando o conteúdo tratava justamente de inovação.”

Trabalhando com atividades da mesma natureza por vinte anos, passei a me incomodar com o status quo conservado e preservado tanto pelos que vieram antes quanto depois de mim. Apresentações profissionais realizadas por décadas na mesma linguagem, no mesmo formato: slides projetados enquanto o interlocutor os narra de pé à frente deles, sacerdotisa da objetividade. Havia algo de contraditório quando o conteúdo tratava justamente de inovação.

Um código convencionado e retroalimentado, talvez por falta de questionamento, talvez por preguiça mesmo. Romper e propor novas maneiras de compartilhar conteúdo quase sempre despertava dúvidas, insegurança e um medo mal disfarçado nos clientes que financiavam a produção. As palestras em formatos conhecidos eram recebidas com tranquilidade previsível. Já as performances artísticas,  produziam desconforto. Mas foi precisamente pelas margens e bordas que consegui viver experimentos e testemunhar o impacto subterrâneo que provocavam na plateia.

Um código convencionado e retroalimentado, talvez por falta de questionamento, talvez por preguiça mesmo. Romper e propor novas maneiras de compartilhar conteúdo quase sempre despertava dúvidas, insegurança e um medo mal disfarçado nos clientes que financiavam a produção. As palestras em formatos conhecidos eram recebidas com tranquilidade previsível. Já as performances artísticas,  produziam desconforto. Mas foi precisamente pelas margens e bordas que consegui viver experimentos e testemunhar o impacto subterrâneo que provocavam na plateia.

Foi em um evento de grande público que resolvi levar, pela primeira vez, um pequeno gongo tradicional coreano chamado kkwaenggwari. Os palestrantes investem tempo, intelecto, energia e presença para compartilhar seus conhecimentos, mas o início das apresentações era quase sempre sequestrado por tumulto desajeitado que contaminava a entrada: “vamos lá, gente, vamos sentando?”, “boa tarde, pessoal, vamos começar?”. Aquilo me parecia deselegante e quase humilhante – como se o ambiente precisasse ser domesticado antes de qualquer performance nascer. Custava a quem subia ao palco a possibilidade de instaurar um campo minimamente íntegro ao seu tom. 

Minha intenção era crua e rústica: tinha vontade de dizer ao microfone “agora sentem-se e fiquem quietos porque vou começar”. Mas como comunicar isso sem soar rude? Como instaurar silêncio sem impor, de forma gentil e ainda contundente? Eu queria dizer aquilo sem dizer uma palavra.


Comecei com alguns minutos de silêncio, deixando que ele próprio produzisse desconforto até que a plateia se aquietasse por autopercepção. Depois toquei o gongo três vezes, inspirada em parte pelo teatro, em parte pelas igrejas que faziam soar sinos em suas torres para afastar maus espíritos. A tensão se eleva imediatamente. Instalou-se um clima ambíguo de solenidade e alerta. Ninguém sabia exatamente o que viria, mas todos pareciam abertos diante do escuro e sem fundo diante do penhasco de dentro de si. A intensidade de presença das pessoas presentes foi tanta que nunca mais abandonei o ritual em ocasiões importantes.

Aos poucos fui experimentando diferentes entradas e aberturas. Mas uma delas se tornou uma de minhas prediletas: a meditação da cura da criança interior. É um pequeno convite guiado para que aqueles dispostos a se lançar sem temor possam reencontrar versões de si em outros tempos. Algumas ainda pulsando em vivacidade, outras soterradas sob camadas de eficiência, cinismo e adaptação produtiva.

“ O encontro com a espontaneidade, a criatividade, a alegria e a vitalidade congeladas debaixo da personalidade funcional altera o semblante das pessoas. ”

Quase sempre há pessoas que choram ao final de dois ou três minutos. A dimensão do tempo se deforma. Há os que mergulham tão profundamente em si que demoram segundos para retornar ao tempo-espaço do corpo físico, retornando à superfície. Tanto para a decolagem quanto para a aterrissagem, utilizo um pin de cristal quartzo afinado na nota que intuo fazer sentido para aquela ocasião específica.

Em workshops e aberturas de sprint, o efeito costuma ser perturbadoramente eficaz: rompe-se a rigidez das armaduras, couraças e máscaras sedimentadas por personagens sustentados no teatro corporativo. É vulnerabilidade em carne viva.

Mas há, claro, os céticos. Os que não pulam. Os que vigiam. Já vi uma diretora de banco incapaz de permanecer poucos minutos de olhos fechados. Ela os abria alternadamente para verificar quem havia se entregado à experiência e quem permanecia, como ela, na beirada. Todos haviam ido. E talvez tenha sido uma das cenas mais tristes que já presenciei em silêncio: alguém sem intimidade consigo, incapaz de sustentar a própria companhia. Foi uma rara exceção.

São poucos minutos que conduzem a viagens longas, íntimas e intransferíveis, mobilizando conteúdos emocionais ligados a experiências de vínculo, rejeição, proteção, vergonha, abandono, amor ou pertencimento. Mas quase todos retornam abraçados  de autocompaixão, como se reencontrassem não apenas suas crianças, mas também a responsabilidade tardia de proteger os sonhos delas.

São poucos minutos que conduzem a viagens longas, íntimas e intransferíveis, mobilizando conteúdos emocionais ligados a experiências de vínculo, rejeição, proteção, vergonha, abandono, amor ou pertencimento. Mas quase todos retornam abraçados  de autocompaixão, como se reencontrassem não apenas suas crianças, mas também a responsabilidade tardia de proteger os sonhos delas.